quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Começar tem de ser devagar

“Roma e Pavia não se fizeram num dia”
“Devagar se vai ao longe”
“Com paciência e perseverança, tudo se alcança”
“Quem tudo quer tudo perde”
“A pressa é a mãe do arrependido”
“Tostão a tostão, faz um milhão”
“Depressa e bem, não há quem”

Podia ficar aqui o dia todo, mas acho que já dá para perceberem a ideia: não se matem logo ali ao principio porque não é assim que vão obter mais resultados, correm o risco de se lesionarem e vão acabar por desistir.
Estamos a falar de saúde, mas de melhorar a saúde, não de dar cabo dela.

Já aqui disse que foi quando fiquei desempregada que decidi mudar o meu estilo de vida. Nessa altura procurei manter-me intelectualmente activa, habituada que estava a uma certa dinâmica mental, e inscrevi-me numa formação em Lisboa. Moro a cerca de 30 quilómteros da capital, num sítio ermo onde mais depressa encontro um coelho que um autocarro, de maneira que fiz as contas ao tempo e dinheiro que teria de gastar para ir e voltar, quer fosse de transportes quer fosse de carro – com portagens, gasolina e estacionamento. A combinação que saía mais vantajosa era ir de carro até à Av.José Malhoa, onde o estacionamento é zona verde, e fazer a pé o percurso restante até ao local da formação, perto do El Corte Inglés. A distância não era grande, cerca de 1,5 quilómetros, mas nos primeiros dias custou-me imenso. Arrastava-me pela rua fora, completamente desorientada – Lisboa é para mim um mistério tão insondável como bater natas em chantilly - e chegava à aula transpirada e exausta, pronta para tomar um duche e voltar para casa. Ainda ponderei o investimento de estacionar à porta do centro de formação, mas era ridículo de tão caro. E assim, durante 3 meses, lá fui e voltei, 3 quilómetros a pé todos os dias.
Como era Inverno dei por mim a caminhar ao frio e à chuva. Confesso que no início também isso me causou grande confusão e desconforto, mas a verdade é que adaptado o vestuário e o calçado à minha nova realidade, ao fim de pouco tempo até já nessas condições me sabia bem o passeio. Para o fim até já me fazia falta.

Portanto toca a andar a pé. Andar a pé é como o sexo: faz bem às articulações e ao humor, só exige o esforço que quiseres fazer, pode praticar-se em qualquer altura do dia e em qualquer lugar, ao natural ou com recurso a equipamentos extra.

É assim que se começa, devagar. E se for por obrigação, melhor ainda. 

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Se queres mudar, no ginásio não deves entrar

Quando tratamos como lixo esta jóia que é o nosso querido corpo, é natural que ele amue e se recuse a fazer-nos as mais básicas vontades, como mexer-se ou fazer cocó. Nós não o tratamos bem, ele não nos trata bem, é assim a vida.
Um vez amuado, desamuá-lo pode ser bastante difícil, por isso há que lhe lançar desafios que ele possa achar divertidos ou então corremos o risco de isto acabar realmente mal.
Quando decidi mudar, em lugar de seguir este elementar conselho que acabei de demonstrar que sabia, fiz precisamente  contrário e cometi o erro mais frequente entre a maioria de nós, malta das decisões drásticas e estúpidas: inscrevi-me num ginásio. Ah, se é para mudar, então mudamos como deve ser. À bruta.
Ainda nem tinha bem passado a porta e já o buraco negro que me separava dos restantes atletas daquele universo paralelo me atingia como um soco no nariz.
Para começar, o outfit. Oh, céus, aquilo era um festival de calças de lycra com padrão de camuflado e riscas fluorescentes, de tops justos e mangas à cava, de garrafas high tech com líquidos espumosos e coloridos, de gadgets electrónicos com auscultadores e música e gráficos para monitorizar sabe Deus o quê, de mamas e rabos firmes e salientes, de sapatilhas tecnologicamente mais avançadas que os foguetões da NASA. E eu? Bem, eu era mais o género velha demente que fugiu do lar onde estava cativa há décadas: calças de algodão mais velhas que o meu casamento, t-shirt da Galp branco amarelado com a gola toda cambada, ténis da filha mais nova e um toque de modernidade, uma garrafa de 33cl de água de Monchique.
E fugi? Não, isso seria se fosse esperta. Não fugi. Pelo contrário, não querendo borregar logo ali, afinal a pessoa tem a sua dignidade, apressei-me a cometer o erro número dois: aceitei uma sessão de personal trainer que o ginásio estava a oferecer. Sem o menor interesse em fazer má figura, já bem bastava o que bastava, perfilei-me junto do pequeno armário de cabeça rapada e cheiro a sovaco com idade para ser meu filho que me calhou em sorte (ou em azar) e fiz tudo o que ele me mandou: subi para a passadeira e corri como uma fugitiva, desci da passadeira e remei como uma condenada, subi para uma bicicleta e transpirei líquidos que sou capaz de jurar me faziam falta para viver. Torturei o meu desgraçado monte de banhas numa variedade de aparelhos hidráulicos que só existem para nos mostrar quão merdosa está a nossa forma física: o que provoca hérnias nas costas, o que inflige paralisia nos peitorais, o que causa fracturas nos braços, o que rebenta os músculos das pernas. Aí voltei-me para o meu compacto e entusiástico carrasco, dei três gritos e disse-lhe que me ia embora. Ele não esmoreceu, pelo contrário, considerou que eu precisava de motivação extra e espetou comigo num colchão onde me agarrou nos pés convencido de que me ia forçar a exercícios daqueles que causam espasmos nos abdominais e desatou a berrar “força”, “vai com garra”, “não desistas”.
E, apesar de ter morrido ali por alturas do remo, apesar do pivete que afinal acho que era meu, e apesar do rapazinho me tratar por tu, eu não desisti.

Mas passou-se mais de um ano até voltar a meter lá os pés.


Começar tem de ser devagar

“Roma e Pavia não se fizeram num dia” “Devagar se vai ao longe” “Com paciência e perseverança, tudo se alcança” “Quem tudo quer tudo ...