sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Se queres mudar, no ginásio não deves entrar

Quando tratamos como lixo esta jóia que é o nosso querido corpo, é natural que ele amue e se recuse a fazer-nos as mais básicas vontades, como mexer-se ou fazer cocó. Nós não o tratamos bem, ele não nos trata bem, é assim a vida.
Um vez amuado, desamuá-lo pode ser bastante difícil, por isso há que lhe lançar desafios que ele possa achar divertidos ou então corremos o risco de isto acabar realmente mal.
Quando decidi mudar, em lugar de seguir este elementar conselho que acabei de demonstrar que sabia, fiz precisamente  contrário e cometi o erro mais frequente entre a maioria de nós, malta das decisões drásticas e estúpidas: inscrevi-me num ginásio. Ah, se é para mudar, então mudamos como deve ser. À bruta.
Ainda nem tinha bem passado a porta e já o buraco negro que me separava dos restantes atletas daquele universo paralelo me atingia como um soco no nariz.
Para começar, o outfit. Oh, céus, aquilo era um festival de calças de lycra com padrão de camuflado e riscas fluorescentes, de tops justos e mangas à cava, de garrafas high tech com líquidos espumosos e coloridos, de gadgets electrónicos com auscultadores e música e gráficos para monitorizar sabe Deus o quê, de mamas e rabos firmes e salientes, de sapatilhas tecnologicamente mais avançadas que os foguetões da NASA. E eu? Bem, eu era mais o género velha demente que fugiu do lar onde estava cativa há décadas: calças de algodão mais velhas que o meu casamento, t-shirt da Galp branco amarelado com a gola toda cambada, ténis da filha mais nova e um toque de modernidade, uma garrafa de 33cl de água de Monchique.
E fugi? Não, isso seria se fosse esperta. Não fugi. Pelo contrário, não querendo borregar logo ali, afinal a pessoa tem a sua dignidade, apressei-me a cometer o erro número dois: aceitei uma sessão de personal trainer que o ginásio estava a oferecer. Sem o menor interesse em fazer má figura, já bem bastava o que bastava, perfilei-me junto do pequeno armário de cabeça rapada e cheiro a sovaco com idade para ser meu filho que me calhou em sorte (ou em azar) e fiz tudo o que ele me mandou: subi para a passadeira e corri como uma fugitiva, desci da passadeira e remei como uma condenada, subi para uma bicicleta e transpirei líquidos que sou capaz de jurar me faziam falta para viver. Torturei o meu desgraçado monte de banhas numa variedade de aparelhos hidráulicos que só existem para nos mostrar quão merdosa está a nossa forma física: o que provoca hérnias nas costas, o que inflige paralisia nos peitorais, o que causa fracturas nos braços, o que rebenta os músculos das pernas. Aí voltei-me para o meu compacto e entusiástico carrasco, dei três gritos e disse-lhe que me ia embora. Ele não esmoreceu, pelo contrário, considerou que eu precisava de motivação extra e espetou comigo num colchão onde me agarrou nos pés convencido de que me ia forçar a exercícios daqueles que causam espasmos nos abdominais e desatou a berrar “força”, “vai com garra”, “não desistas”.
E, apesar de ter morrido ali por alturas do remo, apesar do pivete que afinal acho que era meu, e apesar do rapazinho me tratar por tu, eu não desisti.

Mas passou-se mais de um ano até voltar a meter lá os pés.


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